<!-- Fonte canónica: https://polimeme.com/studies/portugal-opinion-2026/estudo.md -->
<!-- Estudo: O mapa da opinião publicada em Portugal (Parte 1) -->
<!-- Autor: Paulo Querido · Observatório de Viés Noticioso · https://polimeme.com/studies/portugal-opinion-2026/ -->
<!-- Citar: Querido, Paulo (2026). *O mapa da opinião publicada em Portugal — Parte 1: os colunistas.* Observatório de Viés Noticioso, publicado em polimeme.com. -->
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# O mapa da opinião publicada em Portugal

_Parte 1 de 2 · Observatório de Viés Noticioso · Paulo Querido / VamoLáVer · julho 2026_

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Este trabalho responde a uma pergunta simples que nunca tinha sido respondida com dados: quem escreve a opinião publicada na imprensa portuguesa e de que zona do espectro político escreve? As respostas habituais são impressionistas — o Observador é de direita, o Público é de esquerda, e por aí fora. Algumas destas percepções confirmam-se. Outras não resistem à medição.

Explico primeiro o que foi feito, porque o método é metade da história.

Ao longo dos últimos meses reuni cerca de 111 mil artigos de opinião publicados entre 2014 e 2026 nas edições online de treze títulos da imprensa portuguesa — Público, Expresso, Observador, DN, JN, Correio da Manhã, Sábado, Visão, Sol, ECO, Jornal de Negócios, Jornal Económico e TSF. Tanto quanto sei, é o maior corpus de opinião publicada alguma vez reunido em Portugal. Desse universo identifiquei cerca de 300 autores com produção regular, recente e assinatura individual. Excluí os que não escrevem de política — cronistas de costumes, de cultura, de desporto ou de humor, por muito regulares que sejam, porque este exercício só faz sentido sobre textos com tomada de posição política identificável. E incluí, além dos apurados pelo critério de regularidade, alguns autores de relevância editorial evidente com produção suficiente para serem avaliados. Ficaram 215 classificados.

Cada um dos 215 foi classificado numa escala de −6 (esquerda) a +6 (direita), inspirada na grelha do AllSides, o sistema americano de classificação de viés mediático, mas calibrada para o espectro político português, com âncoras nacionais: Bloco e PCP na zona dos −4/−5, PS mainstream nos −2/−1, centro tecnocrático à volta do zero, PSD e IL nos +2/+3, Chega nos +4/+5. A classificação foi feita por um modelo de linguagem (Claude Sonnet, da Anthropic), com uma grelha de instruções fixa que descrevo com mais detalhe na caixa metodológica no final.

Dois princípios do método importam para avaliar os resultados. Primeiro: a classificação deriva exclusivamente dos textos. Não do partido em que o autor milita ou militou, não dos cargos que ocupou, não da reputação. Cada posição atribuída tem de estar ancorada numa citação concreta do corpus; sem frase que a sustente, a posição não conta. Segundo: a grelha inclui instruções explícitas para os sinais que costumam enganar este tipo de análise. Criticar o Chega não é indício de esquerda — fá-lo boa parte do PSD. Preocupação com o défice não é indício de direita — era a marca de Centeno. Criticar o Estado tanto pode ser um liberal a querer reduzi-lo como um socialista a lamentar que falhe aos cidadãos. Nestes casos, o modelo é instruído a decidir pelo contexto, não pela palavra-chave.

Vamos aos resultados.

## Equilíbrio no agregado

No conjunto dos 215 colunistas, a distribuição é a seguinte: 94 classificados à esquerda (72 no centro-esquerda, 22 na esquerda), 99 à direita (69 no centro-direita, 30 na direita) e 22 ao centro.

Ou seja: 44% à esquerda, 46% à direita, 10% ao centro. No agregado, a opinião publicada portuguesa está praticamente equilibrada, com uma vantagem ligeira da direita.

Registo este resultado com algum cuidado, porque contraria as convicções instaladas dos dois lados: a bolha de esquerda está convencida de que o comentário é dominado por liberais, a bolha de direita está convencida de que a imprensa é toda progressista. Os dados não confirmam nenhuma das duas percepções — pelo menos enquanto contagem de vozes disponíveis. Adiante veremos que a forma como essas vozes estão distribuídas pelas publicações conta uma história menos equilibrada.

## A distribuição por publicação

A tabela seguinte mostra a posição média do painel de opinião de cada título:

| Publicação | Posição média do painel |
|------------|-------------------------|
| Observador | +2.8 |
| ECO | +2.3 |
| Negócios | +2.2 |
| Sol | +2.2 |
| Expresso | 0.0 |
| Correio da Manhã | −0.2 |
| JN | −0.6 |
| Público | −0.6 |
| DN | −1.0 |
| Visão | −1.7 |

> **Figura:** o espectro político do painel de opinião de cada publicação.

O padrão é visível a olho nu. A direita concentra-se num grupo de casas com painéis coesos: o Observador e a imprensa económica (ECO e Negócios), mais o Sol. A esquerda não tem título equivalente — não existe um generalista de grande audiência com painel homogéneo à esquerda. O que existe são colunistas de esquerda distribuídos pelos generalistas: Público, DN, JN, Visão, em painéis mistos onde convivem com vozes de direita.

Vale a pena olhar para além da média, porque a média esconde a composição dos painéis. No Observador, a mediana do painel coincide com a média (+2.8): o colunista típico do Observador está onde está o painel inteiro, sem contrapeso interno relevante. No Público passa-se o contrário: a média é −0.6, mas a mediana é −1.5. Isto significa que o colunista típico do Público está claramente à esquerda, e que a média só se aproxima do centro porque o painel inclui algumas vozes de direita suficientemente marcadas para a puxar. O mesmo fenómeno repete-se no Correio da Manhã (média −0.2, mediana −1.2) e no JN.

São dois modelos editoriais diferentes. Os generalistas de centro-esquerda praticam painéis de maioria com minoria audível do campo contrário; as casas de direita praticam painéis homogéneos, praticamente sem vozes dissonantes. Não estou a fazer juízos de valor sobre nenhum dos modelos — o primeiro invoca o contraditório, o segundo a coerência editorial. Mas são modelos distintos, e o leitor de uns e de outros recebe dietas de opinião estruturalmente diferentes.

O Expresso é um caso à parte: é o único título grande exactamente ao centro (0.0), e não por ter um painel de centristas, mas por equilíbrio entre contrários. Dos títulos analisados, é aquele onde os dois campos escrevem lado a lado em força comparável.

## Os extremos

Nos polos do espectro registam-se duas assimetrias de sentido contrário. A direita tem mais autores no extremo: 30 acima de +3, contra 22 abaixo de −3. Mas o polo esquerdo estende-se mais longe: os valores mais extremos de todo o painel pertencem à esquerda — o historiador Manuel Loff (−5.2, Público) e João Oliveira (−5.0) — enquanto o ponto mais à direita é Diogo Pacheco de Amorim (+4.8), deputado do Chega que assina no Sol.

Há uma terceira assimetria, que se cruza com a arrumação por casas descrita acima: os 30 autores do polo direito publicam sobretudo nas casas coesas — Observador, Sol, imprensa económica —, enquanto os 22 do polo esquerdo publicam sobretudo dentro dos generalistas mistos.

Uma ressalva que faço questão de deixar explícita: esta escala mede posição no espectro político, não radicalismo anti-sistema. Um comunista que defende a Constituição e um militante de um partido anti-establishment podem ficar a distâncias parecidas do centro e ter relações muito diferentes com o regime democrático. Essa dimensão — lealdade ao sistema, revisionismo histórico, apelo populista — é medida noutros eixos do modelo, não neste número. A equivalência numérica entre os dois polos não deve ser lida como equivalência política.

## Dez eixos de valores — e uma verificação do método

Além do eixo esquerda-direita, cada autor foi classificado em dez eixos de valores: papel do Estado na economia, autoridade e liberdades, costumes, religião, relação com a União Europeia, ambiente, elitismo-populismo, entre outros. Sempre com a mesma regra: nenhuma posição sem citação que a sustente.

Antes de apresentar os retratos, um resultado técnico que me parece importante partilhar, porque diz respeito à credibilidade de todo o exercício. Quando se cruza cada eixo com o posicionamento esquerda-direita, verifica-se que o eixo económico (Estado versus mercado) tem uma correlação de 0.96 com o eixo geral — é, na prática, o seu principal motor, tal como a teoria política prevê. O eixo dos costumes (tradição versus progressismo) segue-o de perto. Em contrapartida, dois eixos revelam-se independentes do esquerda-direita: o eixo elitismo-populismo (correlação de 0.08, ou seja, nenhuma) e o eixo rural-urbano (0.01). Há populistas e elitistas nos dois campos.

Porque é que isto importa? Porque em nenhum momento se disse ao modelo que a economia devia mandar no eixo geral, nem que o populismo devia ser transversal. Estas estruturas emergiram da classificação, texto a texto, autor a autor. Quando um instrumento reproduz por si próprio a estrutura conhecida do espaço político, há mais razões para levar a sério o que ele diz de novo.

> **Figura:** os eixos de valores — onde os dois campos divergem e onde convergem, ordenados do maior para o menor fosso entre esquerda e direita.

A metade de cima do gráfico é o esperado: os campos separam-se quase quatro pontos (em seis possíveis) na economia, mais de três nos costumes, no comunitarismo e no ambiente, e dois e meio na relação com a Constituição — onde a assimetria tem um detalhe: a esquerda está colada ao polo da defesa de Abril (−2,5), enquanto a direita está apenas ligeiramente do lado revisionista (+0,2). A metade de baixo é o que menos se comenta: nos três últimos eixos, esquerda e direita são indistinguíveis. Ambas desconfiam das maiorias e confiam nas elites (−1,5 contra −1,4), ambas olham o país por óculos urbanos, e ambas escrevem no mesmo registo de decadência — o declinismo da esquerda (−1,50) e o da direita (−1,53) diferem em três centésimas. Os colunistas portugueses discordam sobre o que fazer ao país; estão de acordo em que ele definha, em que as elites devem mandar e em que Lisboa é o sítio de onde se vê.

## O retrato colectivo

E o que ele diz de novo é um retrato de grupo que julgo que nenhum dos campos apreciará por inteiro.

O comentariado português é, em média, elitista: confia nas elites técnicas, académicas e institucionais e desconfia das maiorias e dos seus tribunos (−1.5, numa escala de −3 a +3). É globalista: pró-europeu, multilateralista (+1.2). E é constitucionalista: defende a Constituição e o legado de Abril contra revisões de fundo (−1.4). Sublinho que estas são médias de todo o painel, direita incluída. O comentador de direita típico em Portugal é um liberal-conservador europeísta que não põe em causa o quadro constitucional.

Daqui decorre uma constatação que me parece das mais relevantes do estudo: o populismo, que nas urnas vale um quarto do eleitorado, quase não escreve colunas. Dos 215 autores, os que apelam ao "povo contra as elites" contam-se pelos dedos das mãos. A opinião publicada é o espaço mediático onde o eleitorado anti-establishment está menos representado — menos do que no parlamento, muito menos do que nas redes sociais. Quem procura explicações para o afastamento entre uma parte do público e a imprensa tem aqui um ponto de partida quantificado.

O segundo traço do retrato colectivo é o declinismo. Medimos o registo afectivo de cada autor em relação ao país — se escreve sobre Portugal em tom de decadência ou de progresso. O resultado: 197 dos 215 autores, 92%, escrevem em registo declinista. Portugal como país que não se reforma, que perde os jovens, que fica para trás. Apenas 18 autores escrevem em registo predominantemente optimista.

O declinismo tem ainda uma distribuição curiosa: é mais intenso nos extremos do que no centro. A direita radical é a mais sombria (−2.3, em −3 possíveis), a esquerda vem a seguir (−1.9), o centro é o menos pessimista (−1.3) — mas note-se que até o centro é declinista; apenas menos. A explicação provável é funcional: quem defende mudanças profundas precisa de descrever o presente como falhado. Mas o dado que fica é que o pessimismo sobre o país é o tom por omissão de toda a opinião portuguesa, de uma ponta à outra do espectro.

Um terceiro traço, mais técnico mas revelador: a temperatura retórica está associada à posição política. Classificámos a carga lexical de cada autor — intensidade adjectival, sarcasmo, demonização do adversário. Os autores de retórica intensa (134, mais de metade do painel) estão em média sensivelmente mais longe do centro (distância média de 2.7 pontos) do que os de retórica moderada (1.7). E em 215 autores, exactamente um foi classificado como retoricamente neutro.

## Como se inclina um texto: os mecanismos

Além de medir para onde cada autor inclina, o modelo identificou como inclina — os mecanismos retóricos presentes nos textos, sempre com exemplos concretos. A taxonomia é a clássica dos estudos de viés mediático: escolha de palavras carregadas, spin (interpretação apresentada como facto), enquadramento selectivo, viés de negatividade, omissão, falsa equivalência, ataque pessoal.

O resultado divide os mecanismos em dois grupos. Os quatro grandes são praticamente universais e não têm cor política: a escolha de palavras carregadas foi detectada em 209 dos 215 autores — 97%, o que faz dela menos um viés e mais a própria linguagem do género —, o spin em 169, o enquadramento selectivo em 136 e o viés de negatividade em 134. Em todos eles, a posição média dos autores que os praticam é o centro: esquerda e direita inclinam os textos com as mesmas ferramentas e na mesma dose.

Já os mecanismos minoritários têm assinatura de campo. A omissão selectiva de contexto foi identificada em 32 autores, cuja posição média é +1.6 — claramente à direita. A falsa equivalência (equiparar coisas de gravidade distinta para diluir uma delas) aparece em 12 autores, de média +1.9. E o ataque pessoal como argumento aparece em apenas 4, de média −2.0 — à esquerda. São amostras pequenas, que registo com a prudência correspondente; mas o padrão é interessante: os vícios retóricos de toda a gente são de toda a gente, e os vícios de nicho têm nicho.

## De que fala o comentariado

Os temas dominantes de cada autor, agregados, dão a agenda do comentariado. No topo, com larga distância: a própria democracia — populismo, extrema-direita, qualidade das instituições — presente nos temas centrais de 63% dos autores. Segue-se a Europa e a geopolítica (56%) e o sistema político-partidário (48%). Só depois vêm os temas de políticas concretas: trabalho e leis laborais (37%), imigração (36%), economia e finanças públicas (33%), Estado e administração (26%), habitação (26%), SNS (24%).

Dois registos na cauda da lista. O ambiente e o clima são tema dominante de apenas 12% dos autores — menos do que a tecnologia e a inteligência artificial (21%). E a chamada guerra cultural — identidade, género, religião, costumes — que domina o barulho das redes sociais, é tema central de somente 10% do painel. A opinião publicada portuguesa fala sobretudo de política sobre política: o seu grande assunto é o estado da própria democracia, muito mais do que qualquer política pública em concreto.

## Quem o comentariado elogia e quem ataca

Para cada autor registámos também os actores políticos tratados com favor e com crítica. Agregando estes registos, obtém-se o mapa dos consensos e dos alvos do comentariado.

> **Figura:** quem o comentariado elogia e quem ataca.

Quatro resultados merecem destaque.

**António José Seguro reúne o maior consenso do painel.** 84 dos 215 autores — 39% — tratam-no favoravelmente, e vêm de todo o espectro: a posição média de quem o elogia é −0.2, praticamente o centro exacto. Elogiam-no socialistas, liberais e conservadores moderados. Os críticos são apenas seis, todos concentrados na direita mais dura (posição média +3.9). Nenhuma outra figura política tem um perfil de apoio tão transversal. Se é efeito de lua-de-mel presidencial ou consenso duradouro, só a continuação da medição dirá.

**O Chega é o alvo mais partilhado.** 146 autores — 68% do painel — criticam o partido de André Ventura. E a crítica não é um fenómeno de esquerda: a posição média dos críticos é −0.5, o que faz do crítico típico do Chega um centrista; entre os 146 contam-se dezenas de comentadores de direita. Os autores favoráveis ao Chega são 19. O cordão sanitário que se desfez no plano partidário mantém-se intacto no comentariado — o que, cruzado com a sub-representação populista descrita acima, ajuda a explicar a distância entre a opinião publicada e uma fatia considerável do eleitorado.

**Luís Montenegro é a figura mais dividida.** 47 autores tratam-no favoravelmente, 78 criticam-no, e a divisão segue à risca a linha partidária: os apoiantes têm posição média +2.4, os críticos −1.3. O contraste com Seguro é instrutivo — um primeiro-ministro em funções presta-se naturalmente a mais crítica do que um Presidente recém-eleito, mas a diferença entre o apoio transversal a um e o apoio de campo ao outro é nítida nos números.

**A crítica a Marcelo mudou de campo.** Marcelo Rebelo de Sousa é hoje criticado sobretudo pela direita: 31 críticos com posição média +1.4, contra 13 apoiantes. O comentário de direita censura ao ex-Presidente o que em tempos lhe censurava a esquerda — o excesso de presença, a gestão de afectos, a acomodação a todos os governos.

Em segundo plano, outros padrões previsíveis mas agora com números: os sindicatos são o actor que melhor separa os dois campos (favorecidos por autores de média −2.7, criticados por autores de média +2.4); Pedro Passos Coelho regressou como referência positiva da direita (35 menções favoráveis); José Sócrates continua a ser o alvo preferencial do centro-direita; e o Bloco de Esquerda atrai mais crítica do comentário liberal do que o PCP.

## Quem escreve: o desequilíbrio de género

Há um traço do painel que atravessa tudo o resto e que convém dizer com números. Dos 215 colunistas classificados, 166 são homens e 49 são mulheres — 77% contra 23%. Por cada mulher com coluna regular de política na imprensa portuguesa há mais de três homens. O desequilíbrio não se distribui por igual pelas casas: nos generalistas de centro-esquerda as mulheres chegam a um quarto ou perto de um terço do painel — 31% no Público, 26% no DN —, ao passo que nas casas mais à direita e na imprensa económica descem para um dígito: 9% na Sábado, 6% no Negócios. Quanto mais à direita o painel, menos mulheres o compõem.

E não é só uma questão de quantas escrevem, mas de que zona do espectro escrevem. As mulheres do painel inclinam-se claramente à esquerda: 67% estão à esquerda, contra 24% à direita. Nos homens a proporção é quase a inversa — 52% à direita, 37% à esquerda. A posição média de uma colunista mulher é −1.0; a de um colunista homem, +0.4. Ou seja: o equilíbrio agregado que descrevi no início do texto assenta sobre uma divisão de género. A direita da opinião publicada portuguesa é escrita quase só por homens; a presença feminina concentra-se no campo oposto.

> **Figura:** género e posição política do painel de opinião.

Não avanço aqui uma explicação — o dado pode reflectir o recrutamento das redacções, as escolhas de quem aceita escrever, ou padrões de mais fundo que este exercício não capta. Registo o padrão porque é robusto e porque se cruza com a arrumação por casas descrita antes: os painéis homogéneos de direita são também os mais masculinos, e é aí, na conjugação das duas assimetrias, que o desequilíbrio se torna mais nítido.

## O que este mapa mede — e o que não mede

Convém terminar com os limites do exercício, que são três.

Primeiro: este mapa mede a opinião assinada, o espaço que as publicações entregam a vozes individuais identificadas. Não mede as escolhas noticiosas das redacções — que histórias abrem os sites, como se escrevem os títulos, quem é tratado como protagonista e quem como alvo. Essa é a segunda parte deste trabalho, que publicarei em breve e que usa um método completamente diferente: em vez de ler os colunistas, vigia as homepages.

Segundo: o mapa conta vozes disponíveis, não vozes ouvidas. Um colunista semanal de um título pequeno pesa aqui o mesmo que um comentador omnipresente. Ponderar cada voz pela sua exposição real é um desenvolvimento que tenho em curso.

Terceiro: cada classificação individual é discutível, e é da natureza do exercício que o seja. A diferença em relação aos juízos de café é que estas classificações estão ancoradas em citações dos próprios textos e podem ser confrontadas com elas. Um autor que se considere mal classificado encontrará no registo da sua avaliação as frases exactas que a sustentam — e é esse confronto, não a autoridade do método, que dá utilidade pública a um trabalho destes.

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## Como foi feito

**Corpus:** ~111 mil artigos de opinião (2014-2026) das edições online de 13 publicações portuguesas. **Selecção:** lista de ~300 autores com produção regular, recente e assinatura individual, apurada por critério de regularidade (≥25 artigos desde 2023, publicação activa em 2026) e complementada com autores de relevância editorial com produção suficiente; excluídos os que não escrevem de política (crónica de costumes, cultura, desporto, humor) — 215 classificados. **Classificação:** cada autor foi avaliado por um modelo de linguagem (Claude Sonnet, da Anthropic) a partir de até 50 textos recentes, com uma grelha de instruções fixa e auditável: eixo principal de −6 a +6 com âncoras políticas portuguesas, dez eixos de valores, registo afectivo e tipos de viés textual. Regra central: nenhuma posição sem citação do corpus que a sustente. Sinais ambíguos (criticar o Estado, defender o SNS, preocupação orçamental) têm instruções explícitas de desambiguação pelo contexto. **Confiança:** 171 classificações de confiança alta, 43 média, 1 baixa (assinalada como tal). **Limitações:** a classificação por LLM ainda não foi validada por avaliadores humanos numa amostra sistemática (trabalho em curso); os valores do eixo principal são ordinais, não contínuos; as categorias derivam de fronteiras fixas em ±1 e ±3. O corpus é tudo: o modelo classifica o que os autores escreveram, na janela em que o escreveram — um autor que mudou de posições aparece onde os textos recentes o colocam, não onde a memória pública o guarda.

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_Na Parte 2: os colunistas dizem-nos o que cada casa pensa. Para saber o que cada casa faz, vigiei 21 homepages, hora a hora, durante um mês — 68 mil apresentações de notícias, 1.854 títulos reescritos entre a peça e a montra, 4.800 menções a políticos classificadas uma a uma. Adianto uma conclusão: o viés noticioso não está onde a reputação o coloca._
