<!-- Fonte canónica: https://polimeme.com/studies/portugal-opinion-2026/metodologia.md -->
<!-- Estudo: O mapa da opinião publicada em Portugal (Parte 1) -->
<!-- Autor: Paulo Querido · Observatório de Viés Noticioso · https://polimeme.com/studies/portugal-opinion-2026/ -->
<!-- Citar: Querido, Paulo (2026). *O mapa da opinião publicada em Portugal — Parte 1: os colunistas.* Observatório de Viés Noticioso, publicado em polimeme.com. -->
<!-- Licença: CC BY 4.0 — reutilização livre com atribuição -->

# Metodologia — como foi feito o mapa da opinião publicada

_Observatório de Viés Noticioso · Parte 1 (colunistas) · Paulo Querido / VamoLáVer · julho 2026_

Este documento descreve o método com o detalhe necessário para que qualquer resultado do estudo possa ser avaliado, contestado ou reproduzido. É a régua com que se lê tudo o resto.

## 1. Corpus

Cerca de **111 mil artigos de opinião** publicados entre **2014 e 2026** nas edições online de **13 títulos** da imprensa portuguesa: Público, Expresso, Observador, Diário de Notícias (DN), Jornal de Notícias (JN), Correio da Manhã (CM), Sábado, Visão, Sol, ECO, Jornal de Negócios (Negócios), Jornal Económico (JE) e TSF. Tanto quanto se sabe, é o maior corpus de opinião publicada alguma vez reunido em Portugal.

## 2. Selecção dos autores

Do universo do corpus identificaram-se cerca de **300 autores** com produção regular, recente e assinatura individual. Critério de regularidade: **≥ 25 artigos desde 2023** e **publicação activa em 2026**. A esta lista juntaram-se alguns autores de relevância editorial evidente com produção suficiente para serem avaliados.

Excluíram-se os autores que **não escrevem de política** — crónica de costumes, cultura, desporto, humor — por muito regulares que fossem, porque o exercício só faz sentido sobre textos com tomada de posição política identificável.

**Resultado: 215 autores classificados.**

Nota importante sobre a unidade de análise: o mapa conta **vozes disponíveis**, não vozes ouvidas. Um colunista semanal de um título pequeno pesa aqui o mesmo que um comentador omnipresente. A ponderação de cada voz pela sua exposição real é um desenvolvimento em curso, ainda não incorporado nestes números.

## 3. Classificação por modelo de linguagem

Cada autor foi avaliado por um **modelo de linguagem (Claude Sonnet, da Anthropic)** a partir de **até 50 textos recentes** do próprio autor, com uma **grelha de instruções fixa e auditável**. O modelo não classifica reputações nem currículos: classifica o que está escrito na janela de textos que lê.

Dois princípios estruturam o método:

1. **A classificação deriva exclusivamente dos textos.** Não do partido em que o autor milita ou militou, não dos cargos que ocupou, não da reputação pública. **Cada posição atribuída tem de estar ancorada numa citação concreta do corpus.** Sem frase que a sustente, a posição não conta. É por isso que cada entrada traz as citações que a fundamentam — o autor que se considere mal classificado encontra ali as frases exactas que o colocaram onde está.

2. **A anotação separa-se da inferência.** O modelo anota frames, atores e valências peça a peça. O eixo esquerda-direita é *resultado* da agregação dessas anotações, nunca um pressuposto imposto à leitura.

## 4. O eixo principal (−6 a +6) e as âncoras portuguesas

A escala principal vai de **−6 (esquerda)** a **+6 (direita)**, inspirada na grelha do **AllSides** — o sistema norte-americano de classificação de viés mediático — mas **calibrada para o espectro português**, com âncoras nacionais explícitas:

| Zona | Valor | Âncora política portuguesa |
|------|-------|----------------------------|
| Esquerda | −4 a −6 | Bloco de Esquerda, PCP |
| Centro-esquerda | −1 a −3 | PS mainstream |
| Centro | −1 a +1 | centro tecnocrático |
| Centro-direita | +1 a +3 | PSD, Iniciativa Liberal |
| Direita | +4 a +6 | Chega |

Categorias derivadas (fronteiras fixas): **Left** (≤ −3), **Lean Left** (−3 a −1), **Center** (−1 a +1), **Lean Right** (+1 a +3), **Right** (≥ +3).

**Desambiguação de sinais enganadores.** A grelha inclui instruções explícitas para os indícios que costumam iludir este tipo de análise:

- **Criticar o Chega não é indício de esquerda** — fá-lo boa parte do PSD.
- **Preocupação com o défice não é indício de direita** — era a marca de Centeno.
- **Criticar o Estado** tanto pode ser um liberal a querer reduzi-lo como um socialista a lamentar que ele falhe aos cidadãos.
- **Defender o SNS** é transversal e não arruma por si um autor à esquerda.

Nestes casos, o modelo é instruído a decidir **pelo contexto**, não pela palavra-chave.

**Aviso de leitura.** Esta escala mede **posição no espectro político**, não **radicalismo anti-sistema**. Um comunista que defende a Constituição e um militante de um partido anti-establishment podem ficar a distâncias parecidas do centro e ter relações muito diferentes com o regime democrático. Essa dimensão — lealdade ao sistema, revisionismo, apelo populista — é medida noutros eixos, não neste número. A equivalência numérica entre os dois polos não é equivalência política.

## 5. Os dez eixos de valores

Além do eixo esquerda-direita, cada autor é classificado em **dez eixos de valores** (posição de −3 a +3 e saliência de 0 a 3), sempre com citação de suporte. Cada eixo só conta quando o autor o «aborda» de facto nos textos:

| Eixo | Polo negativo (−) | Polo positivo (+) |
|------|-------------------|-------------------|
| `estado_mercado` | Estado / intervenção | Mercado / liberalismo económico |
| `autoritario_libertario` | Autoridade / ordem | Liberdades individuais |
| `secular_religioso` | Secular / laico | Religioso |
| `tradicionalista_progressista` | Progressista / mudança de costumes | Tradicionalista |
| `elitista_populista` | Elitista (confia nas elites) | Populista (povo contra elites) |
| `nacionalista_globalista` | Nacionalista / soberanista | Globalista / europeísta |
| `ecologico_produtivista` | Ecológico / ambiente | Produtivista / crescimento |
| `constitucional_revisionista` | Constitucional (defesa de Abril) | Revisionista |
| `individualista_coletivista` | Individualista | Colectivista |
| `rural_urbano` | Rural | Urbano |

**Verificação interna do método.** Quando se cruza cada eixo com o eixo geral (−6/+6), a estrutura conhecida do espaço político **emerge sozinha**, sem ter sido imposta ao modelo:

- `estado_mercado` correlaciona-se **0,96** com o eixo geral — é, na prática, o seu principal motor, tal como a teoria política prevê.
- `tradicionalista_progressista` e `ecologico_produtivista` seguem de perto (≈ 0,9 em módulo).
- `elitista_populista` (**0,08**) e `rural_urbano` (**0,01**) são **independentes** do esquerda-direita: há populistas e elitistas, ruralistas e urbanos, nos dois campos.

Que um instrumento reproduza por si próprio a estrutura teórica do espaço político é razão acrescida para levar a sério o que ele diz de novo.

## 6. Registo afectivo e carga lexical

- **Tom declinista** (−3 declínio / +3 progresso): mede se o autor escreve sobre Portugal em registo de decadência ou de progresso.
- **Carga lexical** (`neutra` / `moderada` / `intensa`): intensidade adjectival, sarcasmo, demonização do adversário — a «temperatura retórica» do autor.

## 7. Mecanismos de viés textual

O modelo identifica **como** cada autor inclina — os mecanismos retóricos presentes, sempre com exemplos concretos. A taxonomia é a clássica dos estudos de viés mediático, normalizada em sete famílias:

1. **Escolha de palavras carregadas** (_word choice / loaded language_)
2. **Spin** (interpretação apresentada como facto)
3. **Enquadramento selectivo** (_framing_)
4. **Viés de negatividade** (_negativity bias_)
5. **Omissão selectiva de contexto**
6. **Falsa equivalência** (equiparar coisas de gravidade distinta)
7. **Ataque pessoal** (_ad hominem_)

Nota técnica: no ficheiro JSON o campo `vies_tipos` guarda a etiqueta em texto livre atribuída pelo modelo (com muitas variantes: «Word Choice / Labeling», «Framing by Omission», etc.). Para agregar por família é preciso normalizar para as sete acima — foi o que se fez nos resultados publicados.

## 8. Perfil editorial

Para cada autor registam-se ainda os **temas dominantes** e os **atores políticos tratados com favor e com crítica**. Agregados, dão a agenda e os consensos/alvos do comentariado.

## 9. Confiança e limitações

**Níveis de confiança** atribuídos: **171 alta, 43 média, 1 baixa** (assinalada como tal).

Limitações assumidas:

- A classificação por LLM **ainda não foi validada por avaliadores humanos** numa amostra sistemática (trabalho em curso — inter-rater LLM + humano em ≥ 300 peças).
- Os valores do eixo principal são **ordinais**, não contínuos; as categorias derivam de fronteiras fixas em ±1 e ±3.
- O mapa conta **vozes disponíveis, não vozes ouvidas** (ver §2).
- **O corpus é tudo:** o modelo classifica o que os autores escreveram na janela em que o escreveram. Um autor que mudou de posições aparece onde os textos recentes o colocam, não onde a memória pública o guarda.
- Cada classificação individual é discutível — e é da natureza do exercício que o seja. A diferença face aos juízos de café é que estas classificações estão **ancoradas em citações** e podem ser confrontadas com elas.

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_Este estudo é a Parte 1. A Parte 2 usa um método completamente diferente: em vez de ler os colunistas, vigia as homepages de 21 meios, hora a hora._
